quarta-feira, 23 de julho de 2008

Carrinho de rolimã

Dias desses, ao entrevistar um profissional de televisão acostumado a lidar com o que existe de mais moderno em tecnologia, ouvi um relato impressionante sobre sua vida. Veio de um homem que passou por situações inusitadas e ricas, conheceu personagens antológicos da política nacional e do show bussines e, provavelmente, pôde realizar grandes sonhos de criança. Mas quando perguntado sobre a melhor época da vida, ele não pensou duas vezes: a infância. E fez uma confidência comovente: o brinquedo de que mais se lembrava era um carrinho feito com lata de leite cortada ao meio.

Outro episódio que cito aqui para destacar o valor das coisas simples que passam ao largo das nossas vidas: meu marido há quatro meses dedica-se a escrever um livro sobre a história dele com o pai que morreu há dois anos. Como a segunda pessoa a ter acesso ao texto, encanto-me com os episódios em que são narrados acontecimentos da infância e tantas histórias divertidas que ele viveu com o pai.

Impressiona a riqueza de detalhes que só foram guardados na memória. Não restou nenhum artefato tecnológico, nem brinquedo de última geração. Certamente, as lembranças não são as mesmas para pais e filhos. Não se sabe ao certo o que fica de fato na cabeça dos filhos ao longo dos anos. Fossem comparados os relatos, o pai de meu marido se espantaria com passeios dos quais ele não lembrava, mas que o filho guarda como relíquia de uma época.

O esforço de pais e mães para agradar aos filhos, em todos os momentos, às vezes ultrapassa os limites da sanidade mental e da conta bancária. O que cada um se lembra do tempo de criança? Da roupa de grife que ganhou no Natal? Da bolsa da moda, com detalhe em prata? Do hotel de luxo no país vizinho. Um rápido exercício de memória nos levaria a lembrar de coisas inimagináveis em relação à infância, uma das épocas mais livres da vida do ser humano.

Longe de fazer apologia a uma vida sem nenhum tipo de diversão sofisticada, cabe pensar que tipo de vida nossos filhos estão desfrutando hoje. Que valores estamos passando para cada um deles? Numa época em que não era vergonhoso andar de ônibus ou dividir um sanduíche com o colega de sala, fui adolescente e cometi esses excessos. Tudo era motivo de muita diversão. A carona amiga da Universidade Federal de Sergipe era ponto de diversão, tudo muito leve. Essa atitude, hoje, é impensável.

Num momento em que se busca desenfreadamente uma melhor qualidade de vida, cabe pensar também se tudo isso não passa por uma melhor relação pessoal com os filhos. Não adianta fazer reciclagem de lixo, não jogar papel no chão, não usar copo descartável se as relações também não se renovam. Falta uma ONG que ensine, que incentive os pais a irem pescar com os filhos ou cometer o ato politicamente incorreto de pegar passarinho.

Gasta-se muito tempo com métodos de educação, modelos aprendidos em manuais e simpósios e esquece-se, muitas vezes, do exemplo que vem das coisas mais simples da vida. Como querer que os filhos sejam diferentes se os pais são modelos e servem de espelho para a formação do caráter? Damos a eles um computador para que se ocupem e nos deixem à vontade. É assim que nos surpreendemos ao descobrir que a filha já namora há seis meses.

Olhando atentamente a enorme coleção de brinquedos do meu filho de oito anos, é incrível perceber o que lhe atrai a atenção: brinquedos feitos por ele mesmo. São pedaços de coisas que ninguém imagina que possam virar brinquedos, como pedaços de cabos de vassoura, fita isolante e mil vasilhinhas. Montou uma nave com dois “Ts”, aquela coisinha onde se põem três tomadas de uma vez. Ele consegue criar um mundo de possibilidades.

Dias desses cedemos a uma tentação e fomos todos acampar no quintal de casa. Lá se foram colchões, lanternas e muita disposição de passar a noite num lugar inusitado. Lá pala meia noite, quando as histórias de assombração iriam começar (sempre se faz isso com crianças em acampamentos) eis que chega a chuva. Todos acabamos a noite na sala de casa, amontoados no chão. O episódio, lembrado com tanta alegria e entusiasmo, é prova do significado que teve.

Rolimã é uma palavra que só povoa a mente e o vocabulário de quem já passou dos trinta, trinta e cinco anos. E não sei se aqui no Nordeste a brincadeira fazia tanto sucesso quanto na região Sudeste, principalmente em São Paulo, terra natal onde passei parte da infância. Os carrinhos de rolimã eram feitos invariavelmente de caixas de maçã que eram deixadas à toa na feira. Poucos dominavam a arte de montar um e os que conseguiam viravam, é claro, ídolos da turma.

Sempre gostei mais das brincadeiras dos meninos por dois motivos: o palco preferido deles era a rua e as brincadeiras extremamente aventureiras. Ousei montar um carrinho e gastava as tardes a descer pelo asfalto, ladeira abaixo, com um carrinho sem freios. Velocidade e aventura numa brincadeira que muitas vezes tinha como resultados joelhos roxos e braços machucados. As broncas, com frases que mãe sabe muito bem usar, como “eu não disse que não ia dar certo”, não tiravam a emoção da brincadeira que se repetia por dias a fio.

Claro que tive bonecas e brinquedos caros, mas nada me causa mais emoção que lembrar da sensação de liberdade ao descer ladeiras num carrinho de rolimã. Se alguém perguntar a minha mãe qual o brinquedo de que mais gostei, quando era menina, ela certamente vai dizer que foi uma boneca gigante, que deve ter custado caro e falava “bom dia”. Ledo engano. Não foi.